quinta-feira , 19 de abril de 2018
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fabio nogs

Depressão, modernidade e o exílio do “eu”

 
Em minha tese de doutorado sobre intelectuais negros cubanos nas primeiras décadas do século XX falo a respeito da fotografia como meio de afirmar uma autoridade intelectual em face ao racismo dominante no período. Elas fixavam para a posteridade a imagem do indivíduo – no caso mulheres e homens negros em luta pela cidadania – como educados e refinados, pressupostos a vida moderna. Porém, a fixação da imagem era um processo longo e demorado que representava sacrifício aos indivíduos fotografados, principalmente as crianças.
 
Mas o sacrifício valia a pena: o sujeito passava a existir enquanto tal. Adornava-se dos apetrechos da vida moderna (o fraque alinhado, o chapéu decorado, a gravata e assim por diante). Era a forma como o retratado queria ser visto, o que é bem distinto do que efetivamente de como ele era na vida cotidiana, na relação entre os seus, em especial, entre familiares e amigos. Não raro era a primeira e única vez que se vestia daquela maneira já que as roupas pertenciam ao ateliê do fotógrafo.
Já Marx chamava atenção para a opacidade das relações sociais no capitalismo o que foi traduzido em termos de ideologia e alienação. No entanto, este descompasso entre realidade e imagem no mundo contemporâneo assumiu um forte incremento com o que os sociólogos da Escola de Frankfurt chamaram de indústria cultural. Ao contrário dos intelectuais negros cubanos das primeiras décadas do século XX que através da fotografia construíam uma representação positiva de si para fazer frente ao racismo, hoje o indivíduo é levado à exaustão das poses e performances. A rede social, exemplo melhor acabado deste processo, funciona como uma armadilha ideológica que prende os indivíduos nas finas malhas do poser e do fake. Contraditoriamente este indivíduo existe para um Outro que está cada vez mais difícil de definir e tornar a experiência da exposição contínua nas redes algo angustiante.
 
Este eu encapsulado se consolida na medida em que os “avatares” – personagens de nós mesmos criados para a interação com outros indivíduos a partir das redes definem nossa interação com o mundo e as coisas. Ser um “avatar” de si mesmo tem um preço subjetivo muito alto: retroalimenta as nossas fantasias infantis de reconhecimento permanente e, ao procurar evitar a solidão, lugar comum da experiência contemporânea, nos joga no abismo mais profundo dela.
 
A única garantia que temos é o de um contínuo esvaziamento do ego, a sua paralisia em face às urgências do mundo, a fadiga e cansaço permanentes. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde a depressão só faz crescer no mundo. O Brasil é campeão mundial de transtornos de ansiedade: 9,3% da população (equivalente a 18,6 milhões de pessoas). Não por outro motivo cresce de forma assustadora o uso de medicamentos psicotrópicos em nosso país. Não há relações mais sólidas entre indivíduos íntegros com aquilo que realmente acreditam sem quebrar as máscaras dos avatares. O fortalecimento das vontades, dos desejos e do ego só é possível quando as frustrações e dores deixarem de ser objetivo de negação, mas de afirmação ao se constituírem em fator positivo de intervenção e transformação do mundo.

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