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Foto: Arquivo pessoal
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O Narcismo e redes sociais com o Sociólogo Fábio Nogueira

 Narcismo e redes sociais
O sociólogo Erving Goffman, autor do clássico “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada” (1988) nos apresenta o conceito de “eu social”. O “eu social” é uma porção de nossa identidade como sujeito que está ligado a interação com outros indivíduos e é algo constitutivo dos grupos sociais. É a expectativa que temos do outro em sua interação conosco que nos permite nos relacionar com este. A questão é que este “eu social” é construído no processo de socialização e não equivale necessariamente ao nosso estado de espírito íntimo, interior e mais recôndito. A avidez na busca do reconhecimento e do prestígio – que tem no outro o objeto de consagração – é a base do narcisismo como o pensou Freud. É um processo que remete a socialização primária (quando o indivíduo busca a aprovação dos pais e da família) mas que se amplifica em outros níveis sociais como a escola, a igreja e assim por diante.
As redes sociais inauguram uma nova etapa e modificam a relação entre os indivíduos ao ponto da recompensa subjetiva – materializada nos likes – ser a fonte de aceitação ou reprovação do próprio eu. O “eu real” se confunde com a projeção que os outros têm deste. Quando o individuo passa pela experiência do deslike esta é simplesmente percebida como algo intolerável ao ego que reage violentamente, o que explica, em parte a onda de agressões verbais de todos os níveis que tomam conta das redes sociais. Conservadores típicos, por trás da verborragia e agressividade, escondem uma necessidade obsessiva de aceitação. Porém seria desonesto afirmar que este comportamento é típico apenas de indivíduos politicamente conservadores.
De uma maneira geral, as redes sociais se converteram num mosaico de espelhos global em que os indivíduos esperam avidamente por likes ao fim de cada postagem. Todos querem ingressar em seu pequeno universo da fama. Todos querem ser valorizados por amigos e seguidores (os quais mal conhecem ou tem pouca interação fora do meio virtual). Todos querem mostrar suas pequenas aventuras, dores e conquistas cotidianas e as comunicar ao mundo em busca de aprovação. Todos querem ganhar likes para se certificar que são de fato politicamente conscientes, engajados, descolados ou, simplesmente, um tipo sem noção, apolítico e da turma do se vayan todos.
Se é verdadeiramente livre quando condicionamos nossas ideias e opiniões não aos nossos desejos, mas a necessidade obsessiva de ser aprovados pelos outros? Não estaremos, através das redes sociais, estabelecendo um novo padrão de vigilância e controle virtual em que – independente da história dos indivíduos – sancionamos com um like o que ele deve ser, fazer, pensar e sentir para que possa ser aceito como um igual? Não estará aí a base de nossa dificuldade de se comunicar e estabelecer relações verdadeiramente horizontais com pessoas que pensam diferente de nós? Como diz Caetano Veloso em sua bela canção Sampa, “Narciso acha feio o que é espelho”. Enquanto nos olharmos no espelho das redes sociais em busca de aprovação obsessiva, deixaremos de mergulhar no mundo com suas contradições, dores e delícias e de viver experiências que nos fortaleçam como indivíduos autônomos, livres e seguros de si por valorizar seus próprios desejos e escolhas.

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