sábado , 20 de janeiro de 2018
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Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Venha fazer parte da causa!

3%, a primeira série brasileira do Netflix, dirigida por César Charlone, é estrelada pelo baiano João Miguel que tem uma atuação impecável na pele do personagem Ezequiel, chefe do Processo de seleção a entrada em Maralto, mundo paradisíaco em mar aberto, que contrasta com a pobreza, a miséria e a violência do Continente. Os que vivem no Continente, ao completar 20 anos de idade, tem uma oportunidade de seleção no Processo que é a única porta de entrada para Maralto. Destes apenas 3% chegarão ao final da seleção. As provas do Processo mais se parecerem com as de um realit show (algo apontado negativamente pelos críticos da série), o que, do meu ponto de vista, contribui para deixar evidente o caráter autoritário do mérito como ideologia e estilo de vida (Você merece!, diz Ezequiel ao longo das etapas do Processo).

Os que vivem no Continente estão convencidos que não há futuro melhor que disputar de todas as maneiras possíveis (inclusive através de fraudes) uma vaga entre os 3%. Porém é evidente que um Processo que exclui 97% dos moradores do Continente – retradados como a “escória” pelos que vivem em Maralto – não tem condições de responder as necessidades de seus habitantes e não tarda a aparecer uma organização que questiona a ordem social: a Causa. Além do Processo em si, Ezequiel e sua equipe investigam os planos e as movimentações dos membros da Causa, que são tratados como um grupo de terroristas que querem anarquizar a sociedade idílica de Maralto. As fragilidades da série se localizam no roteiro (com claros e alguns pontos de continuidade mal explicados) e na pouca desenvoltura ao retratar retrospectivamente a vida pregressa dos principais personagens (ou as explicações são simples demais ou ficam fios soltos na trama).

Porém, Ezequiel é o ponto alto de 3%. Ele representa as ambivalências da personalidade autoritária, típica dos grupos conservadores. Sua fé cega no Processo contrasta com seu ódio pessoal contra tudo e todos. Ele é apresentado como algoz e vítima do Processo. Seu ódio ao Continente reflete o desprezo que sente pelo seleto grupo dos 3% que faz parte e o tiraniza. Para Ezequiel não existe o outro, o que existe é o Processo e todos devem viver para este como se seus egos (com suas paixões e particularidades) fossem um tilt no sistema. O próprio Ezequiel foi obrigado a abrir mão das inclinações inescapáveis de seu eu profundo para conformar-se com o reconhecimento de um Conselho de Estado de Maralto que o manipula em nome de uma harmonia e equilíbrio de uma “sociedade ideal” sem pobreza, tristeza e crime. Ezequiel tem seu ego mutilado, destruído, em nome de um reconhecimento que é abstrato e sem valor do ponto de vista do seu lugar real no mundo, o que, por sua vez, está na origem de uma personalidade autoritária (tão em voga nos dias de hoje) que justifica a violência, o terror e a humilhação do outro em nome de preservar a miragem idílica de uma sociedade de eleitos.

Maralto e o Continente estabelecem entre si uma relação dialética de oposição e complementaridade. É do mundo cão do Continente que saem os 3% mais aptos para viver em Maralto que se representa como uma casta de eleitos por terem vencido os obstáculos de uma vida miserável e as etapas de um Processo que é em si irracional e destituído de princípios e valores para além do salve-se quem puder. Por outro lado, para os que vivem no Continente (com exceção dos membros da Causa) a oportunidade de ir a Maralto aparece como a única oportunidade de suas vidas. Uma vez fracassado no Processo, fracassado para o resto da vida, não restando outra condição senão a de viver como um pária social.

Quem seriam os 3% em nossa sociedade? A casta dos mais ricos? Das celebridades e seus universos paralelos de prestígio e reconhecimento? A casta burocrático-militar das potências econômicas mundiais? O grupo do G7? Difícil afirmar categoricamente. Mas o nosso lado é mais evidente. Estamos entre aqueles que rejeitam a divisão em castas, o caráter autoritário do mérito como ideologia e estilo de vida e que combatem às desigualdades sociais. Estamos junto com os movimentos, partidos e indivíduos que questionam a concentração de renda, a exploração do trabalho e o império do ódio e do autoritarismo que domina a sociedade capitalista atual. Estamos entre os 97%! Por uma nossa conta e risco, porém, livres e senhores de nossos próprios desejos. Por isso, fica o convite: Venha fazer parte da Causa!

Fábio Nogueira é Doutor em Sociologia pela USP e mestre em Sociologia e Direito (UFF). Professor da Universidade do Estado da Bahia. Autor dos livros “Porto” (Ed. Life, 2015), obra literária, e mais recentemente “Clóvis Moura: trajetória intelectual, práxis e resistência (Eduneb, 2016). É militante do movimento negro e fundador do Círculo Palmarino. Ex-candidato a prefeito de Salvador, este colunista é ainda presidente do PSOL Salvador.

Sobre Redação MBQ NEWS - RB

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